
De um modo geral, toda a minha geração foi marcada por duas guerras, que embora distintas nos seus objectivos geo-estratégicos, e especialmente nos meios empregues, tinham parecenças, que embora pouco óbvias, as tornavam muito semelhantes.
Uma geração inteira envolvida num conflito ultramarino, longe dos seus lares e famílias, do qual pouco sabiam, fosse sob o ponto de vista militar, fosse sob o ponto de vista político, era realmente um ponto de união entre os Norte Americanos, que em protesto levavam à cena na Broadway o musical “Hair”, enquanto os nossos Minhotos e Transmontanos que se limitavam a embarcar no “Niassa” e a tatuar inocentemente no antebraço o inevitável “Amor de Mãe”.
E assim, uma geração inteira marchou para a frente de combate, apenas imbuída do espírito da disciplina, sem saber o que a esperava, e de um modo geral sem saber sequer porque estava a combater.
Por um lado a guerra do Vietname, altamente mediatizada e capaz da mobilização de meios logísticos, técnicos e humanos virtualmente inesgotáveis, por outro lado a “nossa” Guerra Ultramarina, feita apenas com a valentia e espírito de sacrifício de gente simples, amiúde analfabeta, que se empenhava porque não tinha outro remédio, obedecendo de forma quase cega aos seus superiores, sem sequer suspeitar que poderia vir a ser traída por muitos daqueles a quem, na sua simplicidade, havia jurado fidelidade.
A “nossa” guerra era-me demasiado próxima.
Conhecia os combatentes, os mártires e os dissidentes. Era a guerra da minha geração, contada “boca-a-boca”, desvirtuada pela "propaganda", polvilhada aqui e ali por interrogações, tais como: “… e sabes o que é que aconteceu ao gajo…? Ouvi dizer que tinha lerpado...”… Na realidade todos acreditávamos que estávamos a defender uma parte integrante do Território Nacional (…E não estávamos?).
Já o Vietnam era mais longínquo e mais político: Um País ajudava uma facção numa guerra civil por razões meramente geo-estratégicas e políticas, enviando para lá contingentes militares que não tinham qualquer afinidade com os territórios ou gentes pelos quais lutavam.
Isso sempre me levou a considerar a enorme produção cinematográfica feita em torno do Vietnam, uma de duas possibilidades: Ou mera “propaganda” oficial ou a “contra-propaganda” que um regime democrático sempre permite, o que para nós na altura era algo de muito pouco compreensível.
Até que um dia, já em São Paulo (Brasil), fui ver a obra prima de Copolla, “Apocalypse Now”, e pela primeira vez em anos, apercebi-me bem da proximidade de ambas as guerras: É que as semelhanças não estavam nos objectivos nem nas motivações, mas tão só na capacidade quase impossível de um homem estar colocado nos níveis máximos de insanidade que a guerra arrasta consigo e conseguir sobreviver física e psicologicamente a essa terrível experiência.
Uma das cenas que mais me marcou no filme, é quando o Capitão Wilard (Martin Sheen) chega a uma zona de combate, rasteja pelas fortificações e encontra um negro, fumando um “charro” e ouvindo aos gritos uma música de Jimmy Hendrix ("Machine Gun", se não me falha a memória). “Quem manda aqui?” pergunta Wilard. “Não é Você?” Pergunta o negro espantado, enquanto aspira uma longa baforada de Marijuana.
É desta insanidade de que falo!
Li há dias um conjunto de relatos feitos pelo meu Primo Afonso, acerca da tremenda e igrata tarefa que é "fechar" uma guerra.
Conheço-o bem: É um homem pacato, bem formado e chefe de uma família numerosa e unida!
Longe da caricata figura do Rambo, mourejou por Cabinda, pelos Dembos e por Cambambe, cumprindo a sua missão, defendendo os seus Homens, tentando proteger os Civis - vítimas da vergonhosa traição de Rosa Coutinho e quejandos – e basicamente tentando manter alguma ordem no caos em que a situação vivida teimava em mergulhar a sua razão, âncora à qual sempre se conseguiu manter agarrado.
Compreendo bem o
“Tempo Flutuante” a que ele se refere.
Em determinada altura, confessa ele, as nossas referências e capacidades de análise tornam-se num círculo que se vai fechando à nossa volta, por vezes de uma forma tão apertada, que a fronteira que nos separa dos animais selvagens, que apenas vivem entre duas refeições ou no limiar da mais pura sobrevivência, se esbate de tal forma que a nossa própria natureza racional pode ser facilmente questionada.
O Afonso teve o seu “Apocalypse Now” e concedeu-nos o previlégio de o partilhar connosco.
“Tempo Flutuante” (FNAC e Bertrand – para quem esteja interessado), não é um livro de guerra, mas antes um livro sobre Homens que viveram, sofreram e sobreviveram à guerra. É um relato vivido, sofrido e sentido por alguém que esteve sujeito a experiências que a maior parte de nós nem sequer consegue imaginar. Trata-se da descrição dura, crua e mesmo brutal, de tal forma surrealista que quase nos leva a pensar numa bem conseguida obra de ficção, sendo que este é um dos tais casos em que a realidade consegue superar facilmente a ficção.
Passaram-se cerca de 35 anos e a História insiste em manter um silêncio ensurdecedor sobre o que foi a Guerra e sobre o que foi a descolonização, em tempos apelidada de “exemplar”. Falam muito dos mortos, mas pouco falam dos vivos. Esquecem a herança de uma guerra civil de cerca de 20 anos, qual presente envenenado com que brindámos o Povo Angolano ao som do hino, com o arrear da Bandeira Nacional.
Faça-se História, Porra!!!
Pela parte que toca ao Afonso, acho que pode dormir descansado: Não só cumpriu o seu dever, como conseguiu que ele não caísse no pusilânime esquecimento que tem ensombrado a nossa História recente.
Para ti, meu querido Afonso, um forte abraço e a minha sincera admiração pelo homem e pelo militar (Miliciano, diga-se)!